segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

2009

2009 está prestes a passar à história e com ele vamos perdendo as energias que nos sobram até chegar 2010 e um novo fulgor, numa nova década, numa nova vida. Como falamos de um ano terminado em 9, falamos nos melhores do ano mas também nos melhores da década. Em época natalícia, parece ser difícil chamar a alguém de “pior da década” sequer, quanto mais falar dos melhores da década, ainda por cima quando ando no meu mp3 com uma playlist terrivelmente aleatória de grandes discos da década, como “Bubblegum” de Mark Lanegan (2004), “Sung Tongs” dos Animal Collective (2004), “Kid A” dos Radiohead (2000), “Primavera de Destroços” dos Mão Morta (2001), “Want Two” de Rufus Wainwright (2004), entre outros. Correndo os anos 2000-2009, tanta coisa se passou, e tanta banda se fez e se desfez e/ou se voltou a juntar. Foi a época de reuniões jamais imaginadas, de um “boom”de bandas que se deveu á generalização da Internet de onde saltaram fenómenos de vendas. Quase tantas foram as bandas que ouvimos falar só por causa do decaimento da televisão e da cultura de massas e da assunção de um “do-it yourself” espalhado por imensas áreas onde cada um pode ser o que quiser, como as doenças que o acelerar da tecnologia mostrou que não eram novas nem sequer talhadas para serem doenças de uma nova era – casos da SIDA e da Gripe A – H1N1. Foi e será a década, mas acima de tudo o tempo dos gadgets, das redes sociais, da fina linha entre o tudo e o nada, entre o perder e o ganhar, entre os valores que surgem e os que perdem o seu valor.
Por isso, talvez seja difícil falar em melhores da década, quando centenas de bandas farão sempre parte da nossa lista de bandas que não singraram mas que trouxeram bons momentos. É o caso dos The Idle Hands, de que ouvi falar em 2006 e que só este ano editaram o álbum de estreia que agora vou ouvir. “Loaded”, a canção que me fez interessar por eles, é uma canção que muitas bandas de sucesso desta década quiseram mas não conseguiram escrever. Os melhores da década serão, sem dúvida, quem desta década conseguimos aproveitar para ouvir no futuro e quem queremos já ouvir com disco novo em 2010 ou no dia seguinte a beijar os ouvidos com o nosso álbum, a nossa música preferida. Tal não significa que vamos comparar estritamente um “Heathen Chemistry” dos Oasis com um “Elephant” dos White Stripes. É óbvio que discos como este último ou “Kid A” dos Radiohead são discos históricos desta década, de génios que mudaram claramente a música que se fez e se vai fazer.
Confesso que o maior prazer que tenho nesta altura em que se fazem as listas dos melhores do ano é poder saber quais os melhores para quase toda a gente e poder aprender mais um pouco – isso inclui ouvir outros discos que não ouvi durante o ano.
Infelizmente, 2009 foi dentro desta última metade da década em que houve um acentuado “boom” criativo em diversas áreas da música alternativa o ano em que tanta inovação e tanta gente nova não conseguiu criar um disco que valesse mais que 4/5 ou 8/10, sensação com que até já tinha ficado quando me propus a fazer o balanço do ano anterior. Contudo, se considero que “Intimacy” dos Bloc Party pode ser considerado um dos discos desta década, também considero que o melhor disco de 2009 é merecedor dessa distinção com menor peso na consciência até - “Phrazes for The Young” de Julian Casablancas.
Ninguém esquece “Is This It” dos Strokes, um dos discos que personifica claramente o futuro da música: a inovação é perfeitamente subjectiva. Podemos perguntar se os Television não teriam feito algo semelhante, mas os Strokes e os Television são, em perfeita terminologia futebolística, dois jogadores da mesma posição. Convém é não nos esquecermos que não há jogadores idênticos, e que cada um dá o seu toque à sua posição. Daí que “Is This It” seja agora tão elogiado: porque ao fim de tantos anos, ainda sobra a energia e conspicuidade de temas como “Hard To Explain” ou “Take It or Leave It”.
Quanto a “Phrazes for The Young”, é um tremendo exercício de pop a la Strokes. Não há melhor descrição: ouvimos um passeio de Mr. Julian agasalhado com a garra dos Strokes na passadeira vermelha da melhor pop contemporânea de inspiração claramente anos 80, com um copy-paste directo ao “good feeling”. Nenhum tema é a pop que ouvimos, mas todos os temas não constituem menos que uma interpretação decente da criação artística de música…pop. São apenas 8 canções, nem mais nem menos, onde quem pensava que os Strokes poderiam estagnar vê aqui o sucedâneo ideal de “First Impressions of Earth”, e onde quem não concorda ou sequer se importa com isso, viaja pela melhor criação a solo de um líder de uma banda de topo desde “Viva Hate” de Morrissey. Porquê esquecer o bom que já se fez e não olhar para tudo isso ao contrário?
Para além de “Phrazes for The Young”, também marcaram para mim o mercado fonográfico de 2009 os discos dos Yeah Yeah Yeahs, Pet Shop Boys, IAMX, Girls, Doves, Antony and The Johnsons, The Pains of Being Pure At Heart, Royksöpp, Animal Collective, Bruce Springsteen, Gossip, Junior Boys, The XX, Phoenix, Zoot Woman, The Horrors, Franz Ferdinand, Neko Case, Dirty Projectors, Fever Ray, Grizzly Bear, Sonic Youth, Arctic Monkeys, Them Crooked Vultures, entre tantos outros. Na pop mainstream, Rihanna e Beyoncé continuam no topo e as novas meninas como La Roux e Little Boots deram-se a conhecer em grande estilo e com grandes canções merecedoras da luz de estrelas. 2009 foi o regresso dos U2 ao melhor, no melhor disco desde, talvez, "The Unforgettable Fire" de 1992.
Quanto a discos editados em Portugal, os destaques são óbvios e em grande quantidade: Micro Áudio Waves, B Fachada, Samuel Úria, Os Golpes, David Fonseca, Million Dollar Lips, Diabo Na Cruz, Doismileoito, Macacos do Chinês, Três Cantos, Smix Smox Smux, Os Quais, Legendary Tiger Man. Voltou a ser um ano em que se fez muita e boa música portuguesa e em que cantar em português parece estar na moda, é fixe e é diferente, é novo. Uma óptima forma de olhar para a música portuguesa, baseada num conjunto novo de artistas que trouxeram grandes ideias para a nova música deste país, não só em português como em Inglês, ao longo de toda a década, com pretensões de internacionalização conseguida muitas vezes a pulso. Espero que as pessoas não entrem em modas exageradas e hiper-patrióticas e que saibam ver o que é bom e não é sem o preconceito generalizado da língua, comprando bons discos de artistas portugueses.

Em outras áreas, não há grandes destaques a fazer. A televisão portuguesa só tem quase interesse se for por cabo, e no cinema, há muito dinheiro mas nem sempre as ideias têm algo cinematograficamente interessante. Por isso, Jon Stewart continua igual a si próprio, tal como Conan O’ Brien que passou para o horário nobre; também a Liga dos Últimos continua em grande forma e o 5 Para a Meia-Noite é finalmente o programa que junta entrevistas, gente à frente e atrás das câmaras, humor, convidados e conteúdo digno de aposta, sem esquecer o magnífico "Daily Show" versão Gato Fedorento (algumas vezes talvez muito colado ao original e algo desinspirado) e Os Contemporâneos. Quanto a séries, para além das excelentes “House”, "Weeds", “Lost”, “Flight of The Conchords”, “Dexter”, “Family Guy” ou “Heroes”, há a adição de séries como “90210”, “Mad Men”, “Flashpoint”, “Flashforward”. A rádio perdeu António “The Greatest” Sérgio e ainda não consegue deixar de ir atrás dos fenómenos do momento e apostar numa programação sólida e racional segundo uma linha definida para o ouvinte. É isso que, felizmente, a Radar, a Antena 3, a TSF e a Oxigénio têm feito com grande coragem e brilhantismo: o programa sobre António Sérgio que ocupou toda a noite é o melhor presente que se pôde dar a quem gosta de rádio.
Quanto a filmes, os óbvios “Public Enemies”, “Inglorious Basterds”, “District 9”, “A Troca”, “Capitalismo: uma história de amor”, “Moon”, “Ice Age 3”.

Sublinhando a linha que fica deste post, fica em ideia de ironia “Take It or Leave It” pelos The Screening (não é uma versão dos Strokes) e “Loaded” ao vivo, dos The Idle Hands. Sejam felizes!





THE SCREENING: TAKE IT OR LEAVE IT live (2006)


THE IDLE HANDS: LOADED live (the heart we broke on the way to the show, 2009)

2 comentários:

O Astronauta disse...

Meu caro, excelente "síntese" destes últimos dias e também dos últimos 9 anos. Gostei de te voltar a ler.

Apenas não concordo com a referência ao "5 para a meia noite" que, a meu ver, é um péssimo produto televisivo em todos os aspectos: mau cenário, realização desastrosa (por vezes chega a ser constrangedora), temas mal desenvolvidos, apresentadores medíocres (salvo a menina da 2ª feira e o meu bom amigo Alvim que, apesar dos excessos habituais, consegue sempre levar a água ao seu moinho...Sobre o Nilton é melhor nem falar...), convidados desinteressantes a maioria) e conteúdos fracos. Peço desculpa, mas depois destes anos todos a fazer televisão (e nem sempre boa televisão, eu reconheço-o), olho para aquilo e mete-me dó.

Abraços

My_Little_Bedroom disse...

Amigo Astronauta,

Nos aspectos técnicos tens razão sim: às vezes parece um programa amador, com o cenário escondido pela perspectiva das câmaras e com a descoordenação entre rubricas que entram ou não, convidados a que se fazem perguntas do chat ou do Facebook. Mesmo assim tenho tido tendência a esquecer alguns maus momentos, temas e convidados, até porque alguns deles só servem para realçar o que já achávamos (exemplo: Filipa de Castro). E entre repetições de séries e outras coisas, mesmo a TV por Cabo tem dias em que sentares-te no sofá à lareira é um tremendo suplício, se ainda por cima não se apanhar nenhum filme que não se conheça do início e que seja bom.

Curiosamente os "buracos" de interesse em muito do tempo desinteressante da TV Cabo são preenchidos e bem pelo Jon Stewart, ou pelo Shameless, ou por qualquer coisa da SIC Radical...

Abraços